Esta exposição e leitura encenada enquadram-se no conjunto de módulos alusivos aos 40 anos do Teatro da Rainha. É a penúltima do ciclo TR-EXPO-40, agora 41, a última será no Céu de Vidro sobre a temporada teatral que realizámos na antiga Lavandaria do Hospital Termal. Poderia chamar-se João Vieira, pintor e cenógrafo de saberes que integram os segredos artesanais da cena ao vivo, nos figurinos, na construção, nas telas e nos maquinismos, na cenografia, nas magias do uso da teia, essa aberração fora de moda, saberes que se completam na sua prática de pintor autor de uma sofisticada linguagem: o João é pintor de letras, das imagens conceptuais das letras, como me disse numa entrevista.
Os seus quadros aqui expostos são de uma inventiva de traços e linhas numa geometria que lhes é comum, uma linguagem, uma cromática que encerra simbologias nas formas e cores, nos gestos de pintar e nas figuras pintadas, ligados a uma representação da Morte como exercício de um poder absoluto e de certo modo científico: uma Morte de muitas caras, omnipresente, uma Morte inevitável, uma Morte ao serviço dos desígnios insondáveis do Senhor.
As suas figuras estilizadas e abstratas transportam a crueza das ações deste fiel servidor de Deus único, o criador do orbe terrestre, de todas as formas de vida e de todas as formas destrutivas. A sua crueza, sinalizada em linhas gestuais e cores de uma depurada solene austeridade, mostram uma Morte que não olha quem leva, levando crianças, mães grávidas, lavradores, mas também fidalgos e bispos, ninguém se safa, todos partem. A sua ação, no entanto, nunca é justa, é arbitrária, dá para onde o imaginado humor lhe dá, é irracional na sua omnipotência.
O João Vieira é um dos grandes pintores portugueses do século XX, pela apurada técnica que praticou, pela invenção da pintura caligráfica, essa pintura das imagens das letras que traduzem corpos, posições, atitudes, letras personagens.
A peça, aqui temática, é O lavrador da Boémia, de Johannes von Saaz, que Jean-Pierre Sarrazac encenou em Évora no Teatro Garcia de Resende, com o Gil Nave e comigo, Morte e Lavrador, em tradução de Isabel Lopes e com a cenografia do João – entrava também um coro de meninos da Casa Pia de Évora a fazer os anjinhos do discurso final desta disputa. Mais tarde realizei na Lavandaria uma nova versão, Letra M, M de Morte e M de Margarida, a mulher da disputatio retórico-dramática e nessa realização o João empenhou-se em contruir um amplo espaço que, na realidade, foi construir em formas metálicas um teatro em U sobre uma arena de chapa, numa referência directa ao inferno de Dante e indireta ao circo romano e ao princípio da arena, aqui imperfeita, sendo uma das faces um sistema de portas metálicas em vai vem.
A peça é uma disputatio convertida em drama, construída segundo os princípios do combate retórico que aqui põe duas figuras em cena num antagonismo aparentemente irremediável. A Morte, já referida, e o Lavrador – a pluma é a minha charrua – argumentando cada um a sua razão sabendo-se de antemão que o poder da Morte é inquestionável e que, portanto, em causa, não estará propriamente questionar a lei da morte, mas antes a Morte ter levado ao Lavrador a amada, morta de parto, jovem ainda – teria muita vida pela frente se o critério fosse a sua morte natural. O lavrador, primeiro cego de amor, mais tarde capaz da expressão da mais humana racionalidade, tenta trazer a Morte a uma espécie de justiça e legitimidade dos seus actos, como se uma justeza humana pudesse conter os seus actos permanentemente injustos, sem regra, dos mais seletivamente individualizados – levar uma jovem mãe, matar uma criança – aos mais industriais – massacres em massa, genocídios. Aquilo que temos estado a viver na Ucrânia, na Palestina ocupada e agora no Irão, provam com toda a clareza, a absoluta e cega injustiça das máquinas de morte imperiais e massivas, industriais, que gerem a vida no planeta. Guerras, não esquecer, legitimadas por ódios religiosos alimentados.
O regresso a estes materiais, a pintura do João e o texto de Saaz, as fotos do Eduardo Gageiro, do Paulo Nuno Silva, do João Tuna e da Margarida Araújo, e a leitura encenada que vos propomos com os interpretes Fábio Costa – o Lavrador – e Hâmbar de Sousa – a Morte – são, além de um gesto de memória, a prova mais clarividente de que este presente que vivemos e o seu futuro próximo, são apanhados na nossa rede crítica e que o que fazemos, sendo uma celebração, é essencialmente um gesto de protesto e nessa medida, um gesto actual virado para um futuro longe nos antípodas deste presente, um futuro em que o homem não seja o lobo do homem. Essa é a visão laica do teatro, a da paz e da inteligência natural, a de um futuro possível para o género humano, em extinção pelos particularismos reivindicados, xenófobos, de ódio racial, homofóbicos, transfóbicos e mesmo para o ameaçado planeta em submersão e irrespirabilidade constantes.
ONDE?
Sala Estúdio do Teatro da Rainha | Praça da Universidade, Edifício 2, 2500-208 Caldas da Rainha
QUANDO?
7 a 17 de Abril
LEITURAS ENCENADAS
7 de Abril | 19h
11 de Abril | 17h
18 de Abril | 17h
Entrada Grátis
FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Pinturas | João Vieira
Fotografias | Eduardo Gageiro, Paulo Nuno Silva, João Tuna, Margarida Araújo
Leitura encenada | Fábio Costa, Hâmbar de Sousa
Iluminação | Hâmbar de Sousa
Montagem | Joel Pereira, assistido pelos estagiários Fernando Lopes, Mariana Silvério e Carlota Rodrigues
Coordenação de produção | Ana Pereira
Produção Executiva | Rebeca Vendrel
Curadoria | Fernando Mora Ramos assistido por Ana Pereira
Secretariado | Teresa Almeida














