Por razões que todos conhecem o Teatro da Rainha suspendeu a sua actividade exposta. Prevista para fins de Janeiro, a leitura encenada de O teatro é puro cinema, de Álvaro García de Zúñiga – encenado por Teresa Albuquerque – com digressão prevista para Vila Real e Sabrosa , será reagendada, assim como Terra natal, de Daniel Keene, espectáculo encenado por Luís Varela.
A pandemia não perdoa e as alterações de programa, fruto de uma interrupção superior a dois meses de trabalho de palco, serão com certeza ainda outras. Estamos a trabalhar nisso tentando, em vez de projectar soluções de puro corte, ver como tirar partido desta realidade pois a pandemia é um revelador dos problemas, funciona como um diagnóstico do país e seus meandros que se lê à vista de todos. A nós, que trabalhamos na recriação do real, isso interessa – metodologicamente. Esperem, do nosso lado, surpresas portanto.
Logo que sejam claras datas e calendários, o reagendamento será anunciado – na medida em que com a tutela, DGARTES, o programa esteja contratualizado de novo.

Teremos também em breve Em CENA, fora de casa, O discurso sobre o filho da puta, de Alberto Pimenta, que se apresentará no Festival de Teatro de Almada, para um conjunto de dez apresentações, no próximo mês de Julho, na sala antiga da Companhia de Teatro de Almada.

TERRA NATAL, de Daniel Keene
Duas peças-poema
(Inclui os textos A CHUVA e TERRA NATAL)

 

2 de Março

[raízes – emigração]
A peça Terra natal não é sobre o mundo do trabalho ou sobre a emigração económica, fenómeno que nos entra pela casa dentro todos os dias quando vemos na televisão as massas de africanos, de asiáticos, de eslavos que procuram na Europa o seu Eldorado. Mas no centro está uma família (cinco gerações) que virou costas a uma irlanda de guerra e fome para desembarcar numa austrália de promessas de abundância. O RAPAZ vai fazer dezasseis anos («Eu não tenho um jeito especial para nada… Não sei o que quero fazer.»). A AVÓ conta-lhe histórias do êxodo e canta-lhe canções da terra. A MÃE e O PAI já nasceram na Austrália. Ele trabalha, ela cuida da casa, pelo menos por agora. Onde reconhecem raízes? A que chamam terra natal? A uma Irlanda distante de que só a avó tem uma memória antiga? A uma Austrália onde, ao chegarem «varreram para o lado o que estava antes deles, não viram nada»? Onde «tiveram de construir uma nova casa a partir do nada, homem mulher e filho tão longe de tudo o que conheciam antes»?
Cresci na Nazaré. Menino, vi partirem para Toronto e Leamington muitos vizinhos, familiares – era a fome e a guerra colonial. O Canadá era o Eldorado. Ouço relatos: os mais velhos agarrados com toda a força às raízes (o rancho folclórico, o clube e os seus bailes de Carnaval, as cégadas…), com a cabeça no regresso; os do meio esquecidos de voltar, ali diluídos, a reinventarem-se; os mais novos são canadianos, simplesmente.
Diz a AVÓ: «Na sua cama estreita ela [a minha avó] rezava, implorava a deus para voltar para casa. Mas nunca voltou a casa. Veio para aqui, para este lugar no fim do mundo, para começar uma vida nova e esquecer a antiga e a sua mãe disse-lhe que nem ela, nem as irmãs, nem os irmãos alguma vez voltariam a ter fome ou medo».
Onde está, o que é a terra natal?

Luís Varela

24 de Fevereiro

[do teatro e do cinema]
«No meu entender, o cinema é uma composição de imagens de que emerge linguagem; o teatro é um corpo de linguagem do qual podem brotar imagens», escreve Daniel Keene num texto sobre a sua peça curta To Whom it may concern.
Penso em A Chuva, a primeira das duas peças que compõem o espectáculo que preparamos. A velha Hanna fala. É um longo monólogo, um esforço de libertação de uma imagem da infância — um menino a caminho do campo de concentração (de extermínio?) que lhe confia a chuva e há-de voltar para a reaver— que teima em não se deixar verbalizar, obstruída por outras imagens que se vão intrometendo para adiar o dizer.
E penso no documentário de Alain Resnais Nuit et brouillard, na voz branca de Michel Bouquet por cima de uma música contida de Hanns Eisler e de imagens que já todos vimos mil vezes, aqui destacadas/distanciadas pela força poética do cinema. Nos minutos iniciais do filme, os detalhes da entrada dos deportados nos vagões de mercadorias cortam o fôlego pela inocência, pela ignorância: um homem que tenta entrar e é impedido pelos ocupantes, outro, de sobretudo e chapéu mole elegante, parece deixar um recado amável ao militar que fecha o vagão… Quase no fim, o acumulado de coisas retiradas aos presos: pentes, sapatos, óculos…
Volto a Keene: «o cinema é uma composição de imagens de que emerge linguagem; o teatro é um corpo de linguagem do qual podem brotar imagens». A velha Hanna fala.

Luís Varela

14 de Fevereiro

[duas peças-poema]
Escreve Daniel Keene que prefere os quartetos às sinfonias (também eu, e indubitavelmente quando se trata de Beethoven). No quarteto “a contribuição de cada instrumento pode ser claramente ouvida e talvez compreendida”.
Juntamos duas peças curtas de Daniel Keene (A Chuva e Terra natal) e um pequeno grupo de três actrizes e dois actores. Dos laços improváveis entre um monólogo sobre a História do século XX (o Holocausto, recorrente em Keene) e a crónica do quotidiano de gente banal do universo do trabalho algures na distante Austrália, partimos para um espectáculo-poema (outra ideia força de Daniel Keene) em que as vozes como que se apresentam em camadas, deixando vibrar as ressonâncias da ausência, da terra natal perdida, no chão dum presente arenoso que teima em não revelar futuro, mesmo quando a vida explode nos corpos duma velha avó que cita de cor (canta?) estrofes de poemas de Yeats — hinos à liberdade e à transgressão — e dos adolescentes que fazem a descoberta do amor em febres de primavera.
Ao espectador pede Keene que acolha estas curtas peças-poema com todos os sentidos, que faça a experiência de os receber com todas as suas capacidades emotivas.
Por nós, queremos (tentamos) que o espectáculo seja uma experiência tão particular como a escuta concentrada e disponível do quarteto nº 14 de Beethoven: atentos às vozes de cada instrumento, aos diálogos, à explosão coral quando acontece.

Luís Varela

FICHA ARTÍSTICA
tradução e encenação: Luís Varela
Interpretação: Isabel Lopes, Lavínia Moreira, Matilde Fialho, Nuno Machado e Vicente Carvalho
Cenografia: José Serrão
Figurinos: José Carlos Faria
Música: Rui Rebelo
Luz: António Anunciação assistido por Lucas Keating 

Data de estreia a anunciar

O TEATRO É PURO CINEMA, de Alvaro Garcia de Zúñiga

Vinte e dois anos depois da sua estreia, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, o Teatro da Rainha e a blablaLab regressam ao texto que anuncia o modo alvariano: um teatro musical, polifónico, transdisciplinar, sem personagens. Uma peça coral para intérpretes, vozes off e imagens em movimento, revisitada em versão ‘Manuel sur Scène’, dispositivo de leitura orquestrada desenvolvido pelo autor para explorar as infinitas possibilidades da(s) língua(s) e das suas linguagens.

«O teatro abre os parênteses: os actores-reactores imaginam todo um filme. Criam uma janela que é a de um avião, porque o teatro voa. Com ele o tempo voa e faz-nos voar. Alto. Ao mesmo tempo, dentro de um avião, os passageiros assistem a um filme catástrofe e inventam logo a seguir outro. E o avião cai sobre o teatro em plena representação. Morre toda a gente. Na autópsia abre-se um crânio como quem abre uma caixa de Pandora e fecha-se o parêntese.»
Alvaro García de Zúñiga, Abril de 1999

Tradução: Jorge Melícias (a partir da versão castelhana)
encenação e dramaturgia: Teresa Albuquerque
com: Fábio Costa, Fernando Mora Ramos e José Luís Ferreira (ao vivo, em cena) e Ana Zanatti, António Feijó, Fernán García de Zúñiga, Fernando Lopes, Fernando Mascarenhas, Fernando Vendrell, João Cabral, Maria João Seixas, Miguel Azguime e Sérgio Praia (gravados, em bites)
uma co-produção: blablaLab intergalactic e Teatro da Rainha

Data de estreia a anunciar

DISCURSO SOBRE O FILHO-DA-PUTA, de Alberto Pimenta

Respondendo ao convite do Festival de Teatro de Almada, o Teatro da Rainha faz 10 apresentações do texto de Alberto Pimenta, no Teatro António Assunção em Almada.

O filho-da-puta é um comemorativista, um amante das datas que celebram as mortes, um militante da acumulação do regresso do passado como peso e inércia dramática e kitch, ele grita em surdina para si mesmo “viva a morte”, como o general de Franco, pois cultua as abstracções herói-maníacas, a megalomania e a grandiloquência, sendo admirador da tortura e do castigo, da sevícia. Sim, nele, tudo tem a ver com a morte, como refere Pimenta, com celebrar a morte mas também com flores de plástico.
Esta peça é um grito gramaticalmente impecável, rigoroso, pela liberdade livre e contra o preconceito e o amiguismo hipócrita e nepótico que continua a constituir os modos da nossa sociabilidade sempre muito atravessadas de ambições de poder e poderes.

Direcção Fernando Mora Ramos [Encenação] e Miguel Azguime [Composição Musical]
Quarteto de Cordas Vocais Cibele Maçãs, Fábio Costa, Marta Taveira e Nuno Machado
Galeria de Retratos de FDP´s José Serrão
Estátua do FDP Mariana Sampaio
Iluminação António Anunciação e Lucas Keating
Cenografia e Figurinos Fernando Mora Ramos

16 a 23 de Julho no Teatro António Assunção em Almada. Horário a anunciar