TERRA NATAL, de Daniel Keene

(Inclui os textos A CHUVA e TERRA NATAL)

Notas de trabalho – em tempo de espera

Chegados aqui, a quase três semanas da estreia, o trabalho suscita questões novas. As actrizes e os actores adensam as suas figuras (personagens aqui, sombras, vozes, memórias ali) sem pararem um processo de busca, sem deixarem de se surpreender. Os sons do Rui Rebelo vão invadindo o espaço de representação: um murmúrio aqui, um estrondo fabril ali, uma melodia… Peça a peça, os figurinos do José Carlos vão ganhando forma. Os objectos de A Chuva vão-se impondo. Ontem e hoje, o António fez a primeira implantação da bateria de projectores que hão-de permitir desenhar a partir de amanhã o ambiente luminoso do espectáculo.
Sobra para mim o problema do ritmo, da respiração de todo o espectáculo. A Chuva tem uma única didascália inicial (HANNA, uma velha), mas tem um aspecto gráfico, entre parágrafos longos e parágrafos curtíssimos (de uma palavra) que sugerem a forma «poema» com as suas cesuras e pausas; Terra natal, pelo contrário, abunda em didascálias, sendo que a dominante é pausa (ocorre 90 vezes na curta peça!), logo seguida de outras didascálias que convocam o silêncio, a interrupção da palavra, modo indirecto de propor mais pausas no fluxo discursivo.
E se a pausa é como uma cesura ou uma marca de fim de verso no longo «poema» que é a peça? E se a pausa é, em Keene e nestas peças, o modo primeiro de dar corpo à dimensão poética (rítmica e sonora) da representação, uma espécie de musicalidade oculta que as vozes dos actores, os sons, a mobilidade da luz e da folhagem… e os silêncios revelarão?

Luís Varela

Nada em particular junta Terra natal e A Chuva, à parte a proximidade das datas de escrita, à parte a abundante recorrência de imagens poéticas numa e noutra pequena peça. (Mais óbvia seria a reunião num mesmo espectáculo de A Chuva e O Violino, por exemplo, ou de A Chuva e O Primeiro comboio; ou a reunião de Terra natal e Nem perdida nem achada…) No entanto, à medida que o trabalho de encenação avança e se aprofunda, o que parecia oculto vai-se revelando: as pontes poéticas (não tanto dramatúrgicas) que se estabelecem entre a personagem HANNA de A Chuva e a personagem AVÓ de Terra natal. E neste processo de revelação (como num laboratório de fotografia, lento, cauteloso, atento aos contrastes certos) está uma actriz em viagem. Circulando com uma extrema sensibilidade entre as duas peças, carregando imagens, memórias, pesos e levezas de uma para outra, somando-as, a Isabel Lopes cria uma figura inquietante e bela que vai para além de cada uma das personagens. Poesia.
Penso em Brecht e na Weigel e pergunto-me quando escreverá o Fernando, o encenador mais cúmplice da actriz, um poema que, à sua maneira, diga: «Mas a sempre mesma e sempre mutável / Não ficou desiludida quando o chão se fez outro de repente.»

Luís Varela

Duas curtas peças sem qualquer continuidade que não seja a do universo poético, imagético, político, moral, de Daniel Keene. Ao cenógrafo cabe a tarefa de criar um espaço cénico capaz de dar forma visível ao espaço dramático de um longo monólogo movido por uma memória traumática de infância (“Um rapazinho com uma espessa cabeleira negra como carvão deu-me um frasco um pequeno frasco um velho frasco de farmácia castanho com uma etiqueta rasgada e uma bola de papel a fazer de rolha”) e, logo de seguida, ao de uma história do quotidiano duma família operária dos subúrbios, só aparentemente banal porque há uma Avó que transporta com ela memórias, imagens e objetos de outros tempos, outros espaços; porque há um rapaz e uma rapariga que descobrem o futuro diante de nós…
O José Serrão criou para este díptico improvável um chão para um fundo de História (os deportados, os comboios, os campos) e para uma moldura de vida presente (a casa, a fábrica, o parque, o mundo da Avó): um imenso areal, descampado num caso, mítica “austrália” no outro, por cima do qual tremem, fremem, folhas de árvores, de florestas que são passado e futuro: um espaço poético para peças-poema, para a poesia deste estranho teatro.

Luís Varela

Logo numa das primeiras sessões de trabalho à mesa, em finais de Dezembro de 2020, um dos participantes no colectivo artístico interrogava-se sobre a sequência das duas peças no espectáculo: parecia-lhe fazer sentido começar pela peça Terra natal, que tem por quadro a banalidade do dia-a-dia de uma família operária nos tempos de hoje, e terminar por A Chuva, peça cujo quadro é duma ordem mais geral e abstracta, mais universal: a deportação e o subsequente extermínio pelos nazis de camadas bem identificadas da população durante a Segunda Guerra Mundial.
Esta formulação teve a vantagem de permitir pôr em causa a minha hipótese de partida de ordenação das duas pequenas peças na estruturação do espectáculo: A Chuva seguido de Terra natal. E voltou a questão do lugar da História (política) no teatro contemporâneo. Persistimos em convocar primeiro a História, não como fundo à maneira de Brecht (na cenografia como na dramaturgia), porque os tempos históricos de uma peça e outra, sendo diferentes (a memória dos anos 40 do século passado e a “actualidade”), não se esclarecem reciprocamente, mas como moldura de memória para uma recepção mais intensa e emocionalmente rica da pequena estória de actuais «pessoas desprovidas de privilégios, que não têm nenhum “estatuto”, que não têm nenhum poder» (cito Daniel Keene).
Talvez as dezenas de peças curtas de Daniel Keene sejam isso mesmo: um painel de estórias de vidas insignificantes sobre um fundo de História do século XX.

Luís Varela

Terra natal. Diálogo entre o PAI e o RAPAZ (ao serão, diante da televisão? numa tarde de domingo a caminho do futebol?):
«Então e aprenderes um ofício? / Qual? / Não sei vais ter de descobrir / Não tenho um jeito especial para nada / Aprendes a ter é para isso que serve a escola profissional / Há um rapaz na escola que vai ser carpinteiro / Podia ter escolhido pior / pausa / Tu és o quê?/ Tu estiveste no trabalho comigo / Mas tu és o quê? / O que é que quer dizer o que é que eu sou? Sou pintor à pistola / pausa / Eu não sei o que quero fazer / O tempo não pára para ninguém.»
Vem-me ao espírito uma obra que há quase trinta anos foi de leitura obrigatória para quem se interessava pela realidade do mundo do trabalho ( como podia não me interessar eu que, por esses anos, mergulhava a fundo no universo teatral de Michel Vinaver e de Peter Turrini?): La Misère du monde, obra colectiva sob a direcção de Pierre Bourdieu sobre o mundo do trabalho na França do início dos anos ’90. Transcrevo um parágrafo:
Segundo Heródoto, tudo se passou bem entre os Persas enquanto eles puderam contentar-se em ensinar os filhos a montar, a servir-se do arco e a não mentir. Com efeito, é certo que, nas sociedades diferenciadas, a questão, absolutamente fundamental em qualquer sociedade, da ordem das sucessões, quer dizer, da gestão da relação entre os pais e os filhos e, mais precisamente, da perpetuação da linhagem e da sua herança, no sentido mais vasto do termo, se coloca de maneira muito particular. Em primeiro lugar, para continuar aquele que, nas nossas sociedades, encarna a linhagem, quer dizer, o pai, e aquilo que constitui sem dúvida o essencial da herança paterna, quer dizer, essa espécie de «tendência para perseverar no ser», para perpetuar a posição social que o habita, é muitas vezes necessário distinguir-se dele, ultrapassá-lo e, num certo sentido, negá-lo; tarefa não isenta de problemas, tanto para o pai, que quer e não quer essa ultrapassagem assassina, como para o filho (ou a filha) que se confronta com uma missão dilacerante e susceptível de ser vivida como uma espécie de transgressão.
Volto à peça Terra natal. Alguns dias depois deste diálogo entre pai e filho, está a família toda à mesa de jantar. «PAI: Vou dizer-te o que eles me propõem propõem-me uma indemnização de despedimento com um bónus quatro semanas de salário e uma carta de recomendação há nove anos que lá estou meti baixa por doença dois dias dois miseráveis dias / longa pausa / o pai serve-se duma cerveja e bebe

Luís Varela

A peça Terra natal não é sobre o mundo do trabalho ou sobre a emigração económica, fenómeno que nos entra pela casa dentro todos os dias quando vemos na televisão as massas de africanos, de asiáticos, de eslavos que procuram na Europa o seu Eldorado. Mas no centro está uma família (cinco gerações) que virou costas a uma irlanda de guerra e fome para desembarcar numa austrália de promessas de abundância. O RAPAZ vai fazer dezasseis anos («Eu não tenho um jeito especial para nada… Não sei o que quero fazer.»). A AVÓ conta-lhe histórias do êxodo e canta-lhe canções da terra. A MÃE e O PAI já nasceram na Austrália. Ele trabalha, ela cuida da casa, pelo menos por agora. Onde reconhecem raízes? A que chamam terra natal? A uma Irlanda distante de que só a avó tem uma memória antiga? A uma Austrália onde, ao chegarem «varreram para o lado o que estava antes deles, não viram nada»? Onde «tiveram de construir uma nova casa a partir do nada, homem mulher e filho tão longe de tudo o que conheciam antes»?
Cresci na Nazaré. Menino, vi partirem para Toronto e Leamington muitos vizinhos, familiares – era a fome e a guerra colonial. O Canadá era o Eldorado. Ouço relatos: os mais velhos agarrados com toda a força às raízes (o rancho folclórico, o clube e os seus bailes de Carnaval, as cégadas…), com a cabeça no regresso; os do meio esquecidos de voltar, ali diluídos, a reinventarem-se; os mais novos são canadianos, simplesmente.
Diz a AVÓ: «Na sua cama estreita ela [a minha avó] rezava, implorava a deus para voltar para casa. Mas nunca voltou a casa. Veio para aqui, para este lugar no fim do mundo, para começar uma vida nova e esquecer a antiga e a sua mãe disse-lhe que nem ela, nem as irmãs, nem os irmãos alguma vez voltariam a ter fome ou medo».
Onde está, o que é a terra natal?

Luís Varela

«No meu entender, o cinema é uma composição de imagens de que emerge linguagem; o teatro é um corpo de linguagem do qual podem brotar imagens», escreve Daniel Keene num texto sobre a sua peça curta To Whom it may concern.
Penso em A Chuva, a primeira das duas peças que compõem o espectáculo que preparamos. A velha Hanna fala. É um longo monólogo, um esforço de libertação de uma imagem da infância — um menino a caminho do campo de concentração (de extermínio?) que lhe confia a chuva e há-de voltar para a reaver— que teima em não se deixar verbalizar, obstruída por outras imagens que se vão intrometendo para adiar o dizer.
E penso no documentário de Alain Resnais Nuit et brouillard, na voz branca de Michel Bouquet por cima de uma música contida de Hanns Eisler e de imagens que já todos vimos mil vezes, aqui destacadas/distanciadas pela força poética do cinema. Nos minutos iniciais do filme, os detalhes da entrada dos deportados nos vagões de mercadorias cortam o fôlego pela inocência, pela ignorância: um homem que tenta entrar e é impedido pelos ocupantes, outro, de sobretudo e chapéu mole elegante, parece deixar um recado amável ao militar que fecha o vagão… Quase no fim, o acumulado de coisas retiradas aos presos: pentes, sapatos, óculos…
Volto a Keene: «o cinema é uma composição de imagens de que emerge linguagem; o teatro é um corpo de linguagem do qual podem brotar imagens». A velha Hanna fala.

Luís Varela

Escreve Daniel Keene que prefere os quartetos às sinfonias (também eu, e indubitavelmente quando se trata de Beethoven). No quarteto “a contribuição de cada instrumento pode ser claramente ouvida e talvez compreendida”.
Juntamos duas peças curtas de Daniel Keene (A Chuva e Terra natal) e um pequeno grupo de três actrizes e dois actores. Dos laços improváveis entre um monólogo sobre a História do século XX (o Holocausto, recorrente em Keene) e a crónica do quotidiano de gente banal do universo do trabalho algures na distante Austrália, partimos para um espectáculo-poema (outra ideia força de Daniel Keene) em que as vozes como que se apresentam em camadas, deixando vibrar as ressonâncias da ausência, da terra natal perdida, no chão dum presente arenoso que teima em não revelar futuro, mesmo quando a vida explode nos corpos duma velha avó que cita de cor (canta?) estrofes de poemas de Yeats — hinos à liberdade e à transgressão — e dos adolescentes que fazem a descoberta do amor em febres de primavera.
Ao espectador pede Keene que acolha estas curtas peças-poema com todos os sentidos, que faça a experiência de os receber com todas as suas capacidades emotivas.
Por nós, queremos (tentamos) que o espectáculo seja uma experiência tão particular como a escuta concentrada e disponível do quarteto nº 14 de Beethoven: atentos às vozes de cada instrumento, aos diálogos, à explosão coral quando acontece.

Luís Varela

FICHA ARTÍSTICA
TRADUÇÃOE ENCENAÇÃO | Luís Varela
ASSISTENTE DE ENCENAÇÃO | Marta Taveira
CENOGRAFIA | José Serrão
FIGURINOS | José Carlos Faria
AMBIENTE SONORO | Rui Rebelo
DESENHO DE LUZ | António Anunciação
INTERPRETAÇÃO | Isabel Lopes, Lavínia Moreira, Nuno Machado, Carlos Batista e Sara Delgado

Estreia a 6 de Maio. Apresentações até 28 de Maio. Quartas e quintas às 19h30 e sextas às 20h30.

O TEATRO É PURO CINEMA, de Alvaro Garcia de Zúñiga

Vinte e dois anos depois da sua estreia, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, o Teatro da Rainha e a blablaLab regressam ao texto que anuncia o modo alvariano: um teatro musical, polifónico, transdisciplinar, sem personagens. Uma peça coral para intérpretes, vozes off e imagens em movimento, revisitada em versão ‘Manuel sur Scène’, dispositivo de leitura orquestrada desenvolvido pelo autor para explorar as infinitas possibilidades da(s) língua(s) e das suas linguagens.

«O teatro abre os parênteses: os actores-reactores imaginam todo um filme. Criam uma janela que é a de um avião, porque o teatro voa. Com ele o tempo voa e faz-nos voar. Alto. Ao mesmo tempo, dentro de um avião, os passageiros assistem a um filme catástrofe e inventam logo a seguir outro. E o avião cai sobre o teatro em plena representação. Morre toda a gente. Na autópsia abre-se um crânio como quem abre uma caixa de Pandora e fecha-se o parêntese.»
Alvaro García de Zúñiga, Abril de 1999

Tradução: Jorge Melícias (a partir da versão castelhana)
encenação e dramaturgia: Teresa Albuquerque
com: Fábio Costa, Fernando Mora Ramos e José Luís Ferreira (ao vivo, em cena) e Ana Zanatti, António Feijó, Fernán García de Zúñiga, Fernando Lopes, Fernando Mascarenhas, Fernando Vendrell, João Cabral, Maria João Seixas, Miguel Azguime e Sérgio Praia (gravados, em bites)
uma co-produção: blablaLab intergalactic e Teatro da Rainha

Data de estreia a anunciar

DISCURSO SOBRE O FILHO-DA-PUTA, de Alberto Pimenta

Respondendo ao convite do Festival de Teatro de Almada, o Teatro da Rainha faz 10 apresentações do texto de Alberto Pimenta, no Teatro António Assunção em Almada.

O filho-da-puta é um comemorativista, um amante das datas que celebram as mortes, um militante da acumulação do regresso do passado como peso e inércia dramática e kitch, ele grita em surdina para si mesmo “viva a morte”, como o general de Franco, pois cultua as abstracções herói-maníacas, a megalomania e a grandiloquência, sendo admirador da tortura e do castigo, da sevícia. Sim, nele, tudo tem a ver com a morte, como refere Pimenta, com celebrar a morte mas também com flores de plástico.
Esta peça é um grito gramaticalmente impecável, rigoroso, pela liberdade livre e contra o preconceito e o amiguismo hipócrita e nepótico que continua a constituir os modos da nossa sociabilidade sempre muito atravessadas de ambições de poder e poderes.

Direcção Fernando Mora Ramos [Encenação] e Miguel Azguime [Composição Musical]
Quarteto de Cordas Vocais Cibele Maçãs, Fábio Costa, Marta Taveira e Nuno Machado
Galeria de Retratos de FDP´s José Serrão
Estátua do FDP Mariana Sampaio
Iluminação António Anunciação e Lucas Keating
Cenografia e Figurinos Fernando Mora Ramos

16 a 23 de Julho no Teatro António Assunção em Almada. Horário a anunciar