Não deixa de ser sintomático dos baixos níveis de exigência a que a nossa sociedade se rendeu constatarmos que alguns dos melhores livros com que nos deparamos chegam-nos ou por via da dedicação de pequenos editores ou em edições restritas, como as de autor, cuja capacidade de distribuição é praticamente nula, ficando deste modo o público leitor limitado ao “mais do mesmo” que tomou conta de praticamente todo o espaço livreiro. Perde a democracia, neste regime em que a diversidade e a diferença dão lugar a uma espécie de monocultura fastidiosamente repetida nas fórmulas mágicas do sucesso.

Como compreender que um romance do tipo deste “25 de Abril Sempre”, de António Rito Silva, experimental na forma e nos processos, poético nos múltiplos tratamentos da linguagem, mas de leitura perfeitamente alcançável e até lúdica, sem qualquer tipo de subterfúgio hermetista, se mantenha privado do grande público? Talvez exista mais do que uma resposta para esta dúvida, a qual transporta, em si mesma, uma incompreensão confessa relativa aos modos de recepção da literatura produzida no nosso país.

António Rito Silva não é escritor de formação. Quem o é? Adoptou a engenharia de software como profissão, mas não larga mão da escrita dita menos exacta. Disso dão prova obras em que ora se mete com os contos de Miguel Torga – “Ainda os Mesmos Bichos” (2013) -, ora se deixa embalar pela prosa sugestiva de Jorge Luis Borges – “Areia” (2014) -, problematizando o papel da memória enquanto maná ficcional. O romance intitulado “25 de Abril Sempre” foi publicado em 2024, denotando um domínio de recursos estilísticos invejável, assim como a capacidade para colocá-los ao serviço de uma montagem que se desvia das narrativas lineares sem abdicar de uma extraordinária coerência. Começa com uma 4L a narrar a travessia de um Alentejo amarelo, termina nos 50 anos do 25 de Abril a imaginar um documentário «daqueles que filmam uma manta de retalhos feita só dos farrapos de uma vida.»

Para apresentar este romance, convidámos Manuel Portela, escritor, tradutor e Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coordenador do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura (2012-2025) e cofundador do Mestrado em Escrita Criativa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 2021, é desde 2023 diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Sobre “25 de Abril Sempre” escreveu: «”25 de Abril Sempre” constitui uma das mais complexas, dinâmicas e originais representações da sociedade portuguesa na ficção contemporânea. Tomando como eixo narrativo a singularidade, simultaneamente concreta e imaginada, da revolução de 1974 enquanto processo e projeto de transformação, o romance agarra o leitor pelos colarinhos e atira-o contra o chão.» Dia 28 de Abril, às 21h30, na Sala Estúdio do Teatro da Rainha vamos perceber porquê.

  • DATA28 de Abril de 2026
  • HORÁRIO21h30
  • ENTRADALivre
  • INFORMAÇÕES E RESERVAS262 823 302 | 966 186 871 | geral@teatrodarainha.pt
  • MORADASala Estúdio do Teatro da Rainha | Rua Vitorino Fróis - junto à Biblioteca Municipal - Largo da Universidade | Edifício 2 | 2504-911 Caldas da Rainha