O espaço não é o meio (real ou lógico) no
qual se dispõem as coisas, mas o meio pelo
qual a posição das coisas se torna possível.
Merleau-Ponty

O som possui a dimensão temporal. O espaço, condição necessária para a sua existência, torna-se auralidade através dos sons que o habitam a cada momento. É através dela que também se identifica um lugar – uma praça, um jardim, uma escola, o espaço doméstico, o rural e o urbano. A espacialidade da escuta identifica a direção da localização dos sons e fornece uma noção da sua distância relativa a nós. Permite, igualmente, perceber a dimensionalidade de um espaço. Estabelece uma relação dos sons com o mundo à nossa volta. Complementa a informação visível e permite percecionar ações e acontecimentos que não estão no nosso campo de visão, ou ao seu alcance.

O eco é a repetição do som à distância. É ela que determina o tempo que demora o reflexo de som a retornar do outro lado do vale. Quanto maior a quantidade de superfícies refletoras, maior será a quantidade de ecos.

Diz a mitologia greco-romana que a ninfa Eco foi castigada a repetir apenas as últimas sílabas das palavras que lhe fossem ditas por outros. Infeliz com o seu destino, ela acaba por se esconder nas reentrâncias da floresta, vivendo em cavernas e entre penhascos nas
montanhas, sendo os vestígios da sua existência deslocados para a paisagem.

A lenda de Eco propõe a explicação de um fenómeno acústico através da mitologia, mas o estudo da relação entre o som e o processo da audição já era abordado na Grécia Clássica por filósofos e Aristóteles apresenta uma explicação sobre o efeito físico comparando-o ao ricochete de uma bola que bate na parede. No entanto, é apenas no século XVII, com Joseph Sauveur (1653-1716), que a acústica surge como disciplina da física que se debruça, especificamente, sobre o estudo científico do fenómeno do som.

Uma instalação de som pertence à Arte Sonora, uma área da criação que existe no cruzamento da música com as artes plásticas. Destina-se a um contexto de exposição onde a audiência se move no espaço à escuta do objeto, ou do dispositivo, por vezes usando
auscultadores, e funciona como uma experiência auditiva distinta da performance, onde a música é tocada para uma audiência sentada. Trabalha o áudio como material plástico e estrutural, explorando a ligação com o espaço físico, recorrendo, por vezes, à utilização cenográfica de objetos produtores de som (altifalante, megafone, instrumentos musicais modificados). Outras vezes funciona em discurso paralelo ou complementar com a fotografia, a pintura ou a escultura.

Echo! A sala dos espelhos de som parte da ideia dos diferentes tipos de reflexos da sala de espelhos da Feira Popular, usando o eco como um espelho acústico que reflete a imagem sonora dos participantes – a sua voz, e explora o som, o tempo e o espaço.

Recorrendo a um dispositivo sonoro com cinco microfones e oito colunas para uma interação lúdica com o público, convida à fruição da escuta pelas repetições de som produzidas através da entoação de palavras, frases, ou melodias cantadas ao microfone.

A voz dos participantes é captada e tornada matéria sonora modelável que é submetido a tratamento de som por um sistema que possibilita a escuta de si próprio pela escuta em diferido, adiada pelo atraso do eco. A oralidade é ouvida fora do próprio corpo, permitindo conhecer, ou reconhecer, a imagem sonora de si mesmo, e atentar-se à autoescuta do timbre, da entoação, da articulação, da melopeia, da prosódia, e percecionar como o som se desenvolve no tempo e se move no espaço.

A utilização do microfone elimina o fator de distância e torna autónoma a dimensão temporal do eco, possibilitando trabalhá-lo artificialmente apenas pelo ajuste do tempo de demora e da quantidade de repetições de cada um. Os diferentes tempos das repetições de som criam uma sequência, um ritmo, e imprimem, metronomicamente, a sua velocidade6 para o jogo de pergunta-resposta.

Cada microfone corresponderá a um ponto de produção de eco – o ‘eco-ponto’. De acordo com a orientação dos microfones, a produção “aqui” é reproduzida e ampliada “ali”, na coluna da frente. Complementarmente, a espacialização sonora distribui a projeção das repetições e reverberações que ressoam (soam de novo) em diferentes localizações e, fazendo a voz viajar pelo espaço, produzem movimento através da sua deslocação, envolvem os participantes e criam diferentes perspetivas de escuta.

Os textos nas estantes de música ao lado dos microfones servirão como modelos orientadores para operar o jogo do eco – a experiência ecóica, consistindo em pequenas frases intercaladas pela reprodução das repetições, sendo, no entanto, arbitrária a exploração vocal com o dispositivo. A seleção de textos tem a intenção de refletir, direta ou indiretamente, sobre o som e os conceitos determinantes do eco acústico – de tempo e de espaço, e, também, sobre o reflexo da imagem ao espelho.

Echo! A sala dos espelhos de som é, pois, uma instalação que possibilita uma exploração do som pelo som, transformando a perceção auditiva numa experiência participativa através da interacção lúdica com o dispositivo electroacústico, despertando e sensibilizando para a escuta e para a plasticidade do som, contribuindo, assim, para promover a sua valorização estética.

Francisco Leal, Agosto de 2026.

Francisco Leal é técnico de som e sonoplasta. É Mestre em Artes e Tecnologias do Som e tem formação musical clássica e de jazz. Foi Coordenador do Departamento de Som do Teatro Nacional S. João durante 28 anos (1993-2021). Ao longo de 35 anos a sua atividade tem-se dividido entre espetáculos e a gravação e edição de som, tendo assinado múltiplos trabalhos de Desenho de Som e Sonoplastia para teatro, música e dança, assim como para exposições e na criação de bandas sonoras para desfiles de moda. Em 2003, foi distinguido com uma Menção Especial pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, pela sua “contribuição inovadora e artisticamente relevante para o desenvolvimento das linguagens cénicas associadas ao trabalho de sonoplastia e de desenho de som”. Na extensa lista de criadores com quem tem colaborado, encontram-se os encenadores Ricardo Pais, Nuno Carinhas, Fernando Mora Ramos, João Cardoso, Luís Miguel Cintra, Carlos Pimenta, Rogério de Carvalho, Carlos J. Pessoa, os músicos Vítor Rua, Nuno Rebelo, Mário Laginha, Rui Massena, Bernardo Sassetti, Pedro Burmester, Egberto Gismonti, Drumming – GP, os coreógrafos Paulo Ribeiro e Olga Roriz, e o estilista Nuno Baltazar.

Local: Salas Multiusos do CCC – Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha.

HORÁRIO

Escolas: 10h – 17h
Público geral: 17h30 – 21h
Fins-de-semana: 15h – 18h

Sessões disponíveis para escolas mediante marcação prévia: educa@ccc.com.pt

Coprodução | Teatro da Rainha e CCC

Entrada livre.