
– Encenaste esta peça em 1975. Porquê regressar a ela agora?
Se não considerarmos uma brevíssima peça de Luis Valdez que fiz com o Fernando Mora Ramos e o José Manuel Peixoto dois meses antes (As duas caras do patrão que tanto nos divertiu e tanto divertiu o público da Reforma Agrária que a ela assistia), Luz nas trevas foi verdadeiramente a minha primeira encenação. Foi uma experiência satisfatória, mas só. Dirigir com as ferramentas trazidas da Escola do TNS actores tão convencionais em termos artísticos como Joaquim Rosa (Paduk) e Clara Joana (Madame Hogge) não foi pêra doce. O Fernando Mora Ramos, no papel do Ajudante, também ajudava à festa com o seu estilo de representação irreverente que punha o Joaquim Rosa de cabelos em pé. Voltar a ela agora tem qualquer coisa de um acerto de contas com a memória dessa encenação. Existe um outro motivo para ter voltado a ela quando o Teatro da Rainha me propôs que encenasse o espectáculo de Verão apoiado pela Câmara Municipal mas hei-de abordá-lo mais adiante
– “Lux in Tenebris” foi originalmente escrita em 1919, diz-se que sob influência das pequenas peças cómicas de Karl Valentin. Mais de um século depois, a graça mantém-se? O cómico resiste ao tempo?
A inspiração valentiniana é flagrante nesta peça, mas até mais em A Pesca e Expulsando um demónio, pela estrutura, ou em A Boda, pelo desconcerto de grande parte dos diálogos. Nas cinco pequenas peças inspiradas em Karl Valentin e nos seus números de cabaré (faltaria referir O Mendigo ou O cão morto) encontramos o mesmo retrato cruel duma sociedade minada por valores conservadores e por uma notável hipocrisia nos costumes. Acrescente-se que a prostituição e as doenças venéreas a ela associadas era um tema de sociedade abundantemente explorado pelo mundo do cinema numa fusão ambígua de pornografia com campanhas de sensibilização e educação popular. Essa dimensão da peça, tão de actualidade quando ela foi escrita, tão colada à realidade social da Alemanha do pós-Grande Guerra, evidentemente, não está lá agora. Mas isso é o que acontece com o teatro todo: voltamos sempre a Os Persas e não temos Xerxes nem a batalha de Salamina, que foi há dois mil e quinhentos anos.
As peripécias que vão acontecendo, os retratos de comportamentos sociais que se vão desenhando ao longo da pequena peça, as cambalhotas de sentido, as surpresas das revelações que se vão sucedendo como numa máquina bem oleada, são de uma graça perene e hão-de fazer rir muito e pensar.
– Esta peça é sobre o quê, concretamente?
Concretamente, concretamente, a peça é sobre o sexo e as regras elementares do capitalismo: um frequentador do bordel debochado e despeitado desencadeia uma operação de sabotagem do negócio da prostituição que culmina na sua entrada em grande no capital da empresa. Pelo meio, as prostitutas são sabiamente mantidas na ignorância das causas da sua ignominiosa exploração e a vida continua.
– Como o interpretas o conflito de interesses plasmado no texto à luz do mundo actual?
Pomos a pequena peça a funcionar. Não há nenhum propósito de actualização, como não há também um rigor histórico do tipo naturalista à século XIX tardio e século XX inicial. Situamos a acção num tempo alargado da República de Weimar, entre o fim da Grande Guerra, aproximadamente a data da escrita da peça, e a tomada do poder por Adolf Hitler, em 1933, um período de agudização dos conflitos de classes na Europa e na Alemanha, de gestação das formas mais brutais de exploração e de afirmação do poder do capital que se plasmaram no fascismo e no nazismo no século XX. Não estamos aí. Mas o que se produziu nesse período contém ensinamentos úteis para uma intervenção cívica, política, no mundo actual. O pequeno conflito de interesses entre a dona do bordel e o dono da barraca da “Educação popular” da peça há-de permitir-nos olhar numa atitude crítica o que se está a desenrolar nos nossos dias no plano da acumulação do capital global nas mãos de meia dúzia de elon musks.
– Enxertaste na actual encenação um conjunto diverso de canções. Qual foi o critério de selecção? De onde vêm estas canções?
No meu primeiro ano de Escola em Estrasburgo, o terceiro trimestre de trabalho de todas as secções (representação, cenografia, régie-encenação) organizou-se à volta da montagem desta peça. Na direcção do trabalho estava envolvido todo o corpo docente, mas o núcleo central do colectivo dramatúrgico era constituído por Pierre-Etienne Heymann, o director da Escola e encenador, Maurice Regnaut, grande especialista e tradutor de Brecht, Professor da Universidade de Estrasburgo e da Escola, Roland Deville, cenógrafo e professor da Escola, e Mário Barradas, a cumprir o seu terceiro ano de Escola na situação de docente (!). O projecto era fazer com esta peça de juventude (e só podia ser esta porque é a que aborda já, ainda que de forma incipiente, os mecanismos do funcionamento da economia capitalista) um trabalho dramatúrgico que situasse a sua fábula simples num quadro formal do teatro épico. Desde logo, através dos dois procedimentos basilares da interrupção e do comentário, da crítica. Foi estabelecido então que entre cada uma das nove sequências da peça se intercalaria uma intervenção musical (“song”) que havia de permitir ao espectador formular um juízo sobre o que se acabou de ver. Havia de se procurar essas “songs” no material produzido por Brecht até ao exílio, entre as suas peças e a muita poesia já então produzida. Com algumas linhas de força: as referências literárias e poéticas do jovem Brecht naqueles anos de juventude (François Villon, Rimbaud, Büchner, Wedekind…), o funcionamento do capitalismo, o universo da prostituição, a luta pela sobrevivência do homem na cidade, os trabalhos já em curso de elaboração Baal e Tambores na noite. Chegou-se a um conjunto de dez poemas ou canções retiradas de peças. Cinquenta e tal anos depois, quando se tratou de montar o espectáculo, voltei a todo o material poético de Brecht desses anos a ver se algum poema se adequava melhor à fábula actualizada. Eram tão poucas as alternativas (uma) que entendi manter a selecção inicial do colectivo da Escola.
– É curioso como numa peça tão breve os grandes poderes vão desfilando no decorrer da acção: jornalismo, religião, poder político (na figura do fiscal camarário). E, de um modo ou de outro, todos esses poderes parecem corroborar a hipocrisia de Paduk. Estamos diante de uma sátira? Podemos falar numa tentativa de conciliar crítica social e política com divertimento?
É verdade que desfilam exemplares de todas essas expressões do poder, mais ou menos acentuados, que se constitui metaforicamente um fresco de alguns dos principais aparelhos ideológicos do Estado. E é verdade que alguns são zurzidos sem piedade, que toda a pequena peça está marcada por traços satíricos. O espectador riria a bandeiras despregadas se lhe propuséssemos apenas a pequena peça escrita em 1919 e sairia do teatro dizendo que se tinha divertido à grande. Com as “songs”, nós tentamos, sem vergonha, acrescentar espaço e tempo para o espectador pensar e criticar e não temos medo de afirmar que há, em certa medida, uma dimensão pedagógica neste espectáculo, em homenagem, de resto, aos princípios do teatro épico. Portanto, sim, tentativa de conciliar crítica social e política com divertimento. Em prejuízo de um sentido satírico mais elementar. Assim consigamos.
– Há uma inteligência no tipo de discurso da Madame Hogge, proprietária de um bordel, que se assemelha à retórica de sedução no mundo empresarial. Na tua leitura, faz sentido olhar para esta alcoviteira como uma espécie de metonímia do grande capital?
Faz todo o sentido, a meu ver, que a proprietária de um bordel, estabelecimento cujo funcionamento assenta na mais vil exploração da situação de necessidade duma mulher, seja como que a metonímia do grande capital, sim. E, sim, Madame Hogge dá uma bela lição sobre os princípios básicos do funcionamento do capitalismo, da procura do lucro, do salto qualitativo da concorrência entre empresas para a sua fusão em conglomerados dominantes… Aqui, sexo e dinheiro vão de mãos dadas e é difícil não pensar na trama de interesses, nos processos de chantagem que envolvem as grandes figuras do capital e da política actuais nas malhas dos chamados ficheiros Epstein.
– Curiosamente, na relação de Paduk com o assistente Lind também há uma espécie de proxenetismo. É como se entre Paduk e Madame Hogge as diferenças não fossem muitas. Concordas?
Posso dizer que nunca tinha pensado nisso nesses termos? Fico fascinado com a tua pergunta. De facto, ao reclamar do seu empregado as gorjetas honradamente ganhas por este, Paduk tem o comportamento típico do proxeneta: tu “trabalhas” e eu saco. Mas onde as diferenças não são nenhumas é, mais em geral e sem o chulo metido ao barulho, no modo de exploração do trabalho, do trabalhador.
– Uma última questão. Não é a primeira vez que encenas para o Teatro da Rainha. Já lá vão pelo menos uma mão cheia de espectáculos. O que tem este para nos oferecer de novo e diferente?
Aqui é que vou completar a resposta à tua primeira pergunta.
Sempre apreciei muito o espírito do espectáculo de Verão do Teatro da Rainha produzido com a Câmara Municipal das Caldas da Rainha. Feito de preferência num espaço de ar livre, com entrada gratuita, mais do que uma vez com a participação de pessoas da comunidade, mais do que uma vez com música ao vivo, de um modo geral num clima de festa teatral, com um repertório de qualidade, o espectáculo de Verão é o momento da temporada em que a companhia está mais próxima duma ideia de Teatro Popular que nos é muito cara a todos.
Aqui há uns anos, estive para montar uma peça de Marivaux, A Ilha dos escravos, no âmbito deste programa. Seria no Parque, e o lago com os seus barquinhos de recreio haviam de fazer parte. Ficou pelo caminho por causa do covid.
Este ano, e porque os “novos tempos sombrios” que aí estão não me estimulam para uma fantasia em volta da recorrente temática da relação amo/escravo na comédia clássica, quis fazer um espectáculo que, divertindo, permitisse interpelar o estado das coisas, no plano da política, dos grandes movimentos da sociedade, da violenta batalha ideológica em curso e das recentes alterações do capitalismo aceleradas pela hegemonia do novo pensamento neo-liberal, monetarista. Luz nas trevas, como o enceno, permite essa abordagem.
É para mim que este trabalho traz algo de novo e diferente: precisamente a possibilidade de formular estas questões com ligeireza no quadro desafiante do programa do espectáculo de Verão, para mais envolvendo, para além do elenco da companhia, um grupo entusiasta e dedicado de amadores seniores e de jovens estagiários da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha e da Escola Superior de Educação de Viseu.
Escrevia Brecht em A Compra do latão: «O mundo está fora dos eixos, e serão precisos movimentos violentos para que tudo volte ao sítio. Mas entre os instrumentos que servem para tal pode haver um [o teatro], pequeno e frágil, que tem de ser manipulado com ligeireza.» Escrevia também, na mesma obra: «Um teatro em que seja proibido rir é um teatro risível. As pessoas sem humor são ridículas».


