O Teatro da Rainha na Lavandaria do Hospital Termal
Aos 41 anos de idade ainda não temos casa, casa digna, uma forma arquitectónica com teatro potencial, as formas da sua gestação, dentro – um barco sulca as ondas, um avião os céus, um edifício teatral é um interior desenhado para nele acontecerem as criações que a história do teatro consumou nas dramaturgias e o que o futuro sempre trouxe de novo – um novo irmanado produtivamente com a força dos legados. Os teatros foram centros de cidade. Reconhecendo a sua função civilizadora o nosso, ligado a Garret, surgiu no século XIX.
Temos um sítio onde trabalhar e transformámos, nós, um salão de festas de um edifício pensado para escola primária numa sala-estúdio. Somos originais, a tal batata do entroncamento é hoje uma regra.
Vem de longe essa precariedade dos “cómicos”, Cervantes bem o retrata e a vida cigana, de terra em terra, foi modo de existir, somos orgulhosamente saltimbancos – mas não assaltantes de bancos. Mesmo os mais afortunados foram perseguidos, Molière ficou fora de muros católicos e o nosso Judeu foi queimado vivo.
Reivindicando outro modo de existir, no pós-guerra, espalharam-se pela Europa Centros de Criação Teatral Públicos. Os governos saídos da mortandade entenderam a cultura como um antídoto para o nazismo. A arte tem uma função social e a mais social das artes, o TEATRO, mais que as outras, pois é-lhe conatural. É essa dimensão crítica que é odiada nesta era em que o entretenimento virou uma ditadura ligada à sacrossanta economia e as tais “audiências” – amontoados humanos – uma religião.
O Sótão da Lavandaria do Hospital Termal foi um dos abrigos que inventámos – nele metemos a nossa lança em África. Um abrigo estranhamente belo, pelo pé-direito – coisa que não temos na sala-estúdio – e pelo tecto em si, pelo tosco das paredes e pela estranha forma em L. Tem o sótão uma escala, uma forma, que se apropriou a uma série de espectáculos que nele inventámos – as arquitecturas interiores com potencialidades cénicas são também texto, condicionam pela forma as criações, tal como as palavras e os corpos.
Entre outros espectáculos foi no Sótão da Lavandaria do Termal que montámos uma estação de comboios – para A Estação Inexistente, de Pirandello/D’Onghia -, o que não poderíamos ter feito na sala-estúdio, onde só coube um de brincar. É um exemplo esclarecedor. Durante oito criações a cidade, com prazer inusitado, frequentou essa sala alternativa. Sabíamo-nos a prazo, como sempre, mesmo que o teatro tenha dois mil e quinhentos anos. Foi só usá-lo para que outros desígnios surgissem. É assim. José Gil explica bem esse mecanismo da psicologia portuguesa. Se as coisas que a nossa arte realiza são sobre desigualdades e violências, sobre assédio e reveladoras de verdades, elas servem a mudança, desnudam sistemas de poder corruptos. Essa mudança é crítica e mental, vai no sentido da verdadeira mudança, a que traz igualdade, fraternidade e solidariedade. Aí a mediocracia, geneticamente ligada ao negócio e à circulação de dinheiros obscuros, reage. É nessa cultura que vivemos, graçolas, populismo rasca e deixa andar. Só que agora temos pela frente a possibilidade real de uma tomada do poder pelas forças obscuras que outrora impuseram ditaduras. Cá estaremos para exigir de novo a nossa liberdade pública de existir, o que no fascismo não aconteceu. Foram décadas de incultura e analfabetismo.
Diante de vós estão os materiais de diversa natureza que criámos nesse momento de abertura que coincidiu com o uso do Sótão da Antiga Lavandaria. Sempre era melhor que existir sobre uma cozinha, e de ter de fazer conviver Beckett e feijoada à moda da tulha.
Fernando Mora Ramos







