Fosse vivo, Pedro Oom completaria 100 anos no próximo dia 24 de junho. Dele se diz, meio a brincar, meio a sério, que morreu de felicidade a 26 de abril de 1974. Estava com amigos, no Restaurante 13, a festejar a chegada da liberdade ao país. A sua obra literária, poética e panfletária, maioritariamente dispersa, conheceu uma reunião no volume Actuação Escrita 1, publicado pela saudosa & etc. em 1980. A ele devemos o conceito de abjeccionismo na literatura portuguesa, provavelmente a face mais original do surrealismo tardio português. Se tivermos em conta a edição do Manifesto Surrealista de André Breton em 1924 e a formação do Grupo Surrealista de Lisboa em 1947, são mais de 20 anos de atraso. Entre desentendimentos, questiúnculas, dissidências e polémicas, a aventura foi intensa e algo efémera. Do melhor que produziu, contamos, precisamente, o abjeccionismo plasmado por Pedro Oom na interrogação tão actual hoje como nos idos de 1940/50: «que pode fazer um homem desesperado quando o ar é um vómito e nós seres abjectos»?

Nascido em Santarém a 24 de junho de 1926, Francisco Pedro dos Santos Oom do Vale foi viver para Setúbal com dois anos de idade. Aos 11 anos, a família fixou-se em Lisboa. O pai esperava que o filho ingressasse no Colégio Militar, mas o amor à liberdade falou mais alto com uma matrícula na Escola Industrial António Arroio ou Escola de Artes e Ofícios e de Habilitação às Belas Artes. Pretendia ser pintor. Foi aí que conheceu Júlio Pomar, Vespeira, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, e tantos outros que viriam a aderir ao surrealismo em ruptura com as teses neo-realistas que então se impunham. É um dos surrealistas da primeira hora, colaborando nas experiências do Cadáver Esquisito. Órfão de pais aos 24 anos, ingressou nos quadros do Instituto Nacional de Estatística como funcionário público. Afasta-se, então, de toda a actividade artística e literária, ainda que nunca tenha deixado de desenhar e de escrever esporadicamente. Abandona o funcionalismo público em 1962, a ele regressando, via Ministério da Educação Nacional, dois anos depois. Faleceu no Restaurante «13», a 26 de abril de 1974, quando festejava com amigos os acontecimentos políticos que então se viviam apaixonadamente.

Para nos falar do abjeccionismo de Pedro Oom, convidámos Maria de Fátima Marinho (1954), Professora Emérita da Universidade do Porto, doutorada com tese sobre o Surrealismo em Portugal. Professora Catedrática da FLUP desde 2001, foi Diretora da Faculdade de 2010 a 2014, ano em que assumiu as funções de Vice-Reitora da UP, até 2018. Em novembro de 2015, foi condecorada pelo Governo Francês com as insígnias de Officier de l’Ordre des Palmes Académiques. É autora de vários livros, de entre os quais se salientam: Herberto Helder, a Obra e o Homem (1982); O Surrealismo em Portugal (1987); A Poesia Portuguesa nos Meados do Século XX – Ruturas e continuidade (1989); O Romance Histórico em Portugal (1999); Um Poço sem Fundo – novas reflexões sobre literatura e história (2005); History and Myth – the presence of national myths in Portuguese Literature (2008); Camilo Castelo Branco e a atração dos abismos (2022). A sua actividade – que inclui ensaios publicados em inúmeras revistas – centra-se nos estudos dos séculos XIX – XXI: poesia, romance e romance histórico.

Nesta sessão, a Professora Maria de Fátima Marinho fará uma apresentação sobre o abjeccionismo e a relevância da obra de Pedro Oom no contexto da literatura surrealista em Portugal, a que se seguirá uma conversa moderada por Henrique Fialho e aberta ao público presente. Pelo meio, serão lidos textos de Pedro Oom por José Carlos Faria e Henrique Manuel Bento Fialho. Dia 19 de Maio, às 21h30, no Pequeno Auditório do Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha.