Esta exposição está para além do que possamos tentar esboçar de trajecto feito em 30 anos de teatro. Portanto não soma, associa e difere, vai em muitas direcções. Faz-se de múltiplos olhares, modos de ver, fotografar, faz-se de tomadas de vista surpresa, corpos, quase sempre, presentes, silhuetas ou rosto, sombras ou seres. Cada foto é um ângulo, uma perspectiva da cena e de fotografar. São 12 fotógrafos, milhares de fotografias, centenas que escolhemos para uma cronologia — mais que excelentes, extraordinárias – e cerca de sessenta que procurámos escolher pelas fotografias em si.
Nas que seleccionámos para o núcleo central — a exposição produzirá noutras alturas mais módulos, um módulo Pinturas de João Vieira/Letra M e um módulo Weisman e Cara Vermelha  /Telão de cenografia de José Carlos Faria — tentámos encontrar virtudes específicas, sejam elas de retrato e pose, de captação de um instante irrepetível, de contrastes de luz, sombra e cor, seja o inesperado a impor o que não seria critério raciocinado.

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Nessa variedade e nessas variações o teatro resiste no gesto do fotógrafo, mesmo quando as fotos procuram na cena o que nem sequer reparáramos que lá estava. O fotógrafo pode circular, fotografar de ângulos inusitados, é por vezes um espectador que entra por ali dentro e vai lá buscar o que quer e não o que lá estaria como marca. É isso que é estimulante, que a foto nos devolva outra visão, outro lado das coisas, a evidência de qualquer coisa que nos salta diante dos olhos e não vemos ou aquilo que lá nos escapara — é surpreendente e excitante quando observamos na foto outro espectáculo, como se a foto encenasse o que fotografa. É esse um dos grandes fitos do fazer teatro: que quem olha crie a sua visão, observe sem condicionamento, como acontece com quem olha de outro ponto e cria o plano até aí inexistente, relações inesperadas, outro espaço.

Mas a fotografia de cena pode extravasar a cena, quando o diálogo com os fotógrafos ganhou a cumplicidade do que é interior ao que é cúmplice, o que está à volta e o que está na memória de outras sessões. Aí há qualquer coisa que não se explica e que coincide, uma espécie de afinidade sensitiva e imaginativa, visiva, qualquer coisa que ali permanece e que é tanto mais surpreendente quando, captado como instante vital nos diz isso, vivificação fotográfica do que já não existe mas ali renasce, momento na foto acordado, surpresa.

A fotografia é, a meu ver, o meio mais fiel de uma transmutação da cena em outra coisa, a foto, mantendo algo que está mais perto do especificamente teatral, já que a fotografia nos devolve, daquilo que é presencial, algo que se fixa – sugerindo movimento – de um modo mais profundo no tempo porque, ao contrário das imagens em movimento acelerado, acontece num tempo de exposição ilimitado a partir do instante captado — o teatro também tem isso na raiz, mesmo muito “activo” tem um tempo de exposição das imagens que, presencial, revela um ritmo humano-artesanal. No teatro grego as imagens quase não se alteravam, o quadro era quase constante, o movimento era fortemente criado pelas palavras lançadas, pelas imagens convocadas pelo texto. Era teatro de uma mobilidade muito acústica, mesmo com os seus deuses ex-máquina e periactos. A fotografia, por estranho que pareça, está perto desse ritmo austero, conceptual, criativo, pois no que fixa sugere um antes e um depois, conta uma história, cria movimento no que imobiliza, por extensão associativa da imaginação. Quem vê, imagina, mexe no tempo. Na foto de teatro, sublinhe-se.

A circunstância teatral, a imagem dos corpos agindo entre corpos num espaço, das determinações sociais e individuais do gesto, é-nos devolvida de um modo que permite as arqueologias do olhar de quem observa, de quem lê mais que de quem “surfa” a foto — é preciso vê-la a contrapelo, quero dizer, descobrir-lhe o menos óbvio, aquela ponto da foto que Barthes referia como punctum e que não era o ponto de encontro das linhas de força mais impostas, mas o de fuga, como acontece na pintura de Breughel, A Queda de Ícaro, que Brecht refere e em que Ícaro quase se não vê e o arado em primeiro plano nos entra pelos olhos — essa desconsideração do mito é nodal, mas é ela que faz o quadro. No ínfimo pormenor está o protagonísta, só se lhe vêem as pernitas.

Podemos encontrar nesta exposição a irrepetibilidade dos momentos captados — com a sua estranha vitalidade post mortem -, a singularidade de cada imagem e camadas de tempo sobrepondo-se, alguns rostos trinta anos depois, o preto e branco e a cor a identificar alturas diferentes, e modos, de fotografar – com o digital o disparo tornou-se fácil, incontável. O dedo do fotógrafo acelerou e a fotografia perdeu qualquer coisa na multiplicação da possibilidade do parto, a sua vulgarização é hoje epidémica e “selfishomana”. No teatro isso não acontece, há sempre um outro que é centro, impede o vazio de ser primeiro plano, o que tem a ver com a condição artesanal, a sua extrema artificialidade e elaboração. Não há aí uma naturalização dos gestos como se diz do “é assim a vida”. É a aturada repetição que converte o mecânico em sensível. E a foto entra nesse fazer dentro como se entrasse dentro da imperfeição perfeccionista da repetição em busca do seu estado gestual anímico: esse momento próprio de se oferecer à tensão com a sala.

Estamos perante um colectivo de fotógrafos que reunimos e convosco fez caminho e vadíagens pelo país, que, em momentos diversos nos foi conhecendo, alguns de continuadamente fotografar o que fazemos o fazem já a partir de um olhar interior como se intuíssem ângulos mais evidentes e enigmas apetecidos, pudessem identificar démarches e cifra estilística, razões, mas sem fazer tese nem inventar bandeiras.

Seja-me permitido entre todos referir três grandes cúmplices, o Paulo Nuno, há tantos anos a fazer quilómetros para nos captar com a sua pachorra sempre bem disposta e o tripé implantado no sítio certo, o João Tuna, que tantas vezes nos fotografou no TNSJ e a Margarida, sempre a registar a nossa vida num modo de nos revelar que mete os entretantos, os antes e os depois, além da cena em si. Nunca nenhuma companhia portuguesa foi tão fotografada, creio poder dizê-lo. E tão bem fotografada como vão poder ver.

E um muito obrigado nosso ao José Pessoa, excelente fotógrafo profissional com décadas de fotografia, ao Joaquim António Silva, que registou sistematicamente os primeiros anos de existência, ao Nuno Finote, ao Valter Vinagre, ao Álvaro Corte-Real, ao Augusto Baptista, que nos apanhou em Moçambique, à Ana Pereira, fotógrafa da Assédio que captou o Barker coproduzido e ao nosso muito querido Acácio Carreira, membro da Rainha desde a primeira hora e que nos fotografou na Culturgest a fazer o Pirandello. E ao Eduardo Gageiro que nos apanhou no Garcia de Resende a fazer O Homem, a Besta e a Virtude, outro Pirandello, por acaso. Há acasos assim.

Fernando Mora Ramos

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