Os Míseros – Prantos, Lamentos, Loas e Pregões é o resultado de uma montagem de textos vicentinos – nela encontramos quadros do Auto da História de Deus, o monólogo Pranto da Maria Parda, quadros da Romagem de Agravados, do Auto das Fadas, da Farsa de «Quem tem Farelos?» e do Auto de São Martinho, seguidos de S.N.S., original de Henrique Manuel Bento Fialho com conexões ao Auto de São Martinho e ao Livro do Compromisso.
Este regresso a Gil Vicente – a Rainha de quem temos o nome é Dona Leonor, mecenas de Vicente – segue um princípio: depois da Queda provocada pelo pecado original – que condena Eva e Adão à humanidade – uma série de desgraças atropelam-nos constantemente, da chegada da morte, à condenação ao trabalho, aos males naturais, o frio, as guerras pela sobrevivência, etc. aos quais se somam os males sociais – a corrupção, a vaidade, os enganos. O Estado, ora pela via política, ora pelas armas, reprime os de baixo. Condenados às hierarquias, arrumados em classes sociais, os homens estão todos sujeitos à morte, mas nem todos passam a vida nas mesmas condições.
Se o homem está sujeito a tamanhas provações depois de pecar, não será a vida o verdadeiro inferno? E não o será especialmente para os mais pobres e desgraçados? No texto vicentino, com ironia e sátira prazenteiramente diabólica, descreve-se esse inferno. Míseros é, assim, um périplo pelos males que assolam a humanidade, mas, sobretudo, pelos males que os de baixo sofrem irremediavelmente. Para estes parece só haver pobreza, doença, desgraça, dificuldades e dor. Estas personagens que povoam os textos vicentinos espelham a efemeridade e fragilidade do homem, cujo destino é ser pó e cinzas.
Nesta sequência cénica veremos passar diabos, sempre activos no mal que imprimem à vida social, Adão e Eva caídos na desgraça, a bêbada Parda, um lavrador, dois proletários do farelo, uma feiticeira Pereira incompreendida no seu mister e um mendigo sem nome. São estas algumas das figuras que Gil Vicente escolheu para relatar a desgraça da condição humana e que perfazem uma galeria de desprotegidos e sem abrigo que continuam até aos dias de hoje.
O que poderia ter atenuado este grau de desgraça? A caridade e a solidariedade? Seremos nós ainda capazes destes actos? Este é o ponto de partida para a peça de Henrique Manuel Bento Fialho, S.N.S., onde o santo Martinho de Gil Vicente se trasveste num Martinho contemporâneo, que, num contexto pandémico, afastado da civilização numa ilha inabitada, tem por única leitura o Livro do Compromisso, primeiro documento institucional do Hospital Termal, protótipo dos princípios de um serviço nacional de saúde. Visitado por Caronte, que lhe traz notícias do mundo, Martinho é acossado pelas epidemias entretanto dominantes, fruto da ignorância que acompanha os modismos e cegueiras sazonais. Duas amantes em fuga e um negacionista a pregar aos peixes aportam na ilha. Saberão conviver? O que significa hoje ser solidário? Como sê-lo num ambiente social promotor do individualismo e do egoísmo exacerbado?
Desde Gil Vicente até à actualidade, a pobreza, o desamparo, a morte estruturada socialmente, são males planetários para os quais a globalização não só não tem dado resposta, como, pelo contrário, vem contribuindo com os seus processos de aculturação promotores da ganância, da avareza, do egocentrismo, dos sete pecados capitais e mais um: a miséria.

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