E viveram infelizes para sempre

Esta peça tem dois protagonistas — um contra-senso —, embora o título seja “Jorge Patego”. Na verdade, o protagonista é uma dupla, uma verdadeira unidade de contrários, um “casal” impossível à luz das aspirações de uma e de outro — no entanto, pela via da sobrevivência de uma classe arruinada (pequena nobreza provinciana) e do desejo de estatuto de outra, entretanto ascendida (burguesia rural nova rica), o encontro dá-se sob a forma de negócio e alguma diplomacia.
O que importa reter é que a luta de classes, que fabrica um momento de conciliação no casamento, é uma luta entre duas “culturas” inconciliáveis. E isso nos modos formalizados de trato a que Patego é obrigado pelos sogros, mas sobretudo, de modo demonstrativo na peça, na irredutibilidade da posição “feminista” de Angélica em contraponto com a resiliente obsessão de Patego em selar a sua ascensão e proclamá-la — de bandeira passa a paranóia durante a peça, o seu “erro” persegue-o, parte-o ao meio: «mais valia ter casado com uma camponesa», pois em caso de infidelidade «dar-lhe umas pauladas» seria legal.
Num tempo em que o direito à escolha, exercer o que se sente em matéria de comércio amoroso, é prática emergente mas não um direito, imperava a justiça patriarcal e o feudo — ela é propriedade do pai, como os servos da gleba, no seu caso a utilidade é casar e dar varões — Angélica desobedece a todos os códigos, aos dos pais beatos e aos do marido proprietário. Vendida a Patego, ela será uma “escrava” de luxo, uma esposa, um brasão a ostentar como qualquer aquisição. O que faz uma esposa na perspectiva de Patego? Fecha-se em casa, é submissa e sorri ao “dono”. Para Patego importa que à riqueza recente junte uma aparência que vai “comprar” justamente no teatro de aparências adversárias. O ascendido combate o poder anterior ao mesmo tempo que é seduzido pelo tipo de vida “requintado” (caçar lebres?) destes — contradição interior e mortal. Hoje, a pequena burguesia universal (Agamben) é seduzida pelo estilo de vida multimilionário das celebridades em espectáculo na prateleira planetária, ser fã é uma fé e o respectivo ícone um modelo. Esse “fim da história” fake começava aqui, nestas vidas que dependiam já de estratégias da “imagem” como renda. No caso, o desejo aristocrático do novo-rico termina em tragédia.
Muitas outras dimensões, exteriores e temáticas, interiores e estruturais, formais, tem esta peça, uma comédia negra, uma comi-tragédia.
O que é explosivo e anuncia tempos futuros são os enfrentamentos duros com os sogros, acusando-os de oportunistas e com a demoiselle chamando-a ao dever de ser fiel em toda a linha, essa vocação canina. Esses conflitos que aqui ainda implodem anunciam os tempos actuais, a luta entre o feminismo libertário e o machismo proprietário, entre a menina “frívola” e o “empreendedor” de sucesso.
Dizer ainda que neste Molière a Commedia d’el Arte está ainda muito presente, geneticamente, numa osmose e equilíbrio notáveis com o teatro de texto, de ideias: o confronto feito teatro, expresso no tribunal da cena, entre as duas perspectivas enunciadas.

Fernando Mora Ramos

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Ficha Artística

Autor | Molière
Encenação | 
Fernando Mora Ramos
Tradução e Dramaturgia | Isabel Lopes
Cenografia |  Adaptação do cenário de José Serrão para “Mandrágora”, de Maquiavel
Desenho de Luz | Hâmbar de Sousa
Desenho de Som | Francisco Leal
Interpretação | Beatriz Antunes, Fábio Costa, Hâmbar de Sousa, Isabel Lopes, José Carlos Faria, Mafalda Taveira, Nuno Machado e Tiago Moreira
Fotografia | Margarida Araújo

M/6

Textos

  • DATAde 10 a 14 de Julho
  • HORÁRIO21h30
  • INFORMAÇÕES966 186 871 | geral@teatrodarainha.pt
  • MORADALargo do Hospital Termal

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