Teatro da Rainha


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UMA CONVERSA COM LUÍS VARELA, A PROPÓSITO DE “LUZ NAS TREVAS”

1 Julho, 2026

– Encenaste esta peça em 1975. Porquê regressar a ela agora?

Se não considerarmos uma brevíssima peça de Luis Valdez que fiz com o Fernando Mora Ramos e o José Manuel Peixoto dois meses antes (As duas caras do patrão que tanto nos divertiu e tanto divertiu o público da Reforma Agrária que a ela assistia), Luz nas trevas foi verdadeiramente a minha primeira encenação. Foi uma experiência satisfatória, mas só. Dirigir com as ferramentas trazidas da Escola do TNS actores tão convencionais em termos artísticos como Joaquim Rosa (Paduk) e Clara Joana (Madame Hogge) não foi pêra doce. O Fernando Mora Ramos, no papel do Ajudante, também ajudava à festa com o seu estilo de representação irreverente que punha o Joaquim Rosa de cabelos em pé. Voltar a ela agora tem qualquer coisa de um acerto de contas com a memória dessa encenação. Existe um outro motivo para ter voltado a ela quando o Teatro da Rainha me propôs que encenasse o espectáculo de Verão apoiado pela Câmara Municipal mas hei-de abordá-lo mais adiante

– “Lux in Tenebris” foi originalmente escrita em 1919, diz-se que sob influência das pequenas peças cómicas de Karl Valentin. Mais de um século depois, a graça mantém-se? O cómico resiste ao tempo?

A inspiração valentiniana é flagrante nesta peça, mas até mais em A Pesca e Expulsando um demónio, pela estrutura, ou em A Boda, pelo desconcerto de grande parte dos diálogos. Nas cinco pequenas peças inspiradas em Karl Valentin e nos seus números de cabaré (faltaria referir O Mendigo ou O cão morto) encontramos o mesmo retrato cruel duma sociedade minada por valores conservadores e por uma notável hipocrisia nos costumes. Acrescente-se que a prostituição e as doenças venéreas a ela associadas era um tema de sociedade abundantemente explorado pelo mundo do cinema numa fusão ambígua de pornografia com campanhas de sensibilização e educação popular. Essa dimensão da peça, tão de actualidade quando ela foi escrita, tão colada à realidade social da Alemanha do pós-Grande Guerra, evidentemente, não está lá agora. Mas isso é o que acontece com o teatro todo: voltamos sempre a Os Persas e não temos Xerxes nem a batalha de Salamina, que foi há dois mil e quinhentos anos.
As peripécias que vão acontecendo, os retratos de comportamentos sociais que se vão desenhando ao longo da pequena peça, as cambalhotas de sentido, as surpresas das revelações que se vão sucedendo como numa máquina bem oleada, são de uma graça perene e hão-de fazer rir muito e pensar.

– Esta peça é sobre o quê, concretamente?

Concretamente, concretamente, a peça é sobre o sexo e as regras elementares do capitalismo: um frequentador do bordel debochado e despeitado desencadeia uma operação de sabotagem do negócio da prostituição que culmina na sua entrada em grande no capital da empresa. Pelo meio, as prostitutas são sabiamente mantidas na ignorância das causas da sua ignominiosa exploração e a vida continua.

– Como o interpretas o conflito de interesses plasmado no texto à luz do mundo actual?

Pomos a pequena peça a funcionar. Não há nenhum propósito de actualização, como não há também um rigor histórico do tipo naturalista à século XIX tardio e século XX inicial. Situamos a acção num tempo alargado da República de Weimar, entre o fim da Grande Guerra, aproximadamente a data da escrita da peça, e a tomada do poder por Adolf Hitler, em 1933, um período de agudização dos conflitos de classes na Europa e na Alemanha, de gestação das formas mais brutais de exploração e de afirmação do poder do capital que se plasmaram no fascismo e no nazismo no século XX. Não estamos aí. Mas o que se produziu nesse período contém ensinamentos úteis para uma intervenção cívica, política, no mundo actual. O pequeno conflito de interesses entre a dona do bordel e o dono da barraca da “Educação popular” da peça há-de permitir-nos olhar numa atitude crítica o que se está a desenrolar nos nossos dias no plano da acumulação do capital global nas mãos de meia dúzia de elon musks.

– Enxertaste na actual encenação um conjunto diverso de canções. Qual foi o critério de selecção? De onde vêm estas canções?

No meu primeiro ano de Escola em Estrasburgo, o terceiro trimestre de trabalho de todas as secções (representação, cenografia, régie-encenação) organizou-se à volta da montagem desta peça. Na direcção do trabalho estava envolvido todo o corpo docente, mas o núcleo central do colectivo dramatúrgico era constituído por Pierre-Etienne Heymann, o director da Escola e encenador, Maurice Regnaut, grande especialista e tradutor de Brecht, Professor da Universidade de Estrasburgo e da Escola, Roland Deville, cenógrafo e professor da Escola, e Mário Barradas, a cumprir o seu terceiro ano de Escola na situação de docente (!). O projecto era fazer com esta peça de juventude (e só podia ser esta porque é a que aborda já, ainda que de forma incipiente, os mecanismos do funcionamento da economia capitalista) um trabalho dramatúrgico que situasse a sua fábula simples num quadro formal do teatro épico. Desde logo, através dos dois procedimentos basilares da interrupção e do comentário, da crítica. Foi estabelecido então que entre cada uma das nove sequências da peça se intercalaria uma intervenção musical (“song”) que havia de permitir ao espectador formular um juízo sobre o que se acabou de ver. Havia de se procurar essas “songs” no material produzido por Brecht até ao exílio, entre as suas peças e a muita poesia já então produzida. Com algumas linhas de força: as referências literárias e poéticas do jovem Brecht naqueles anos de juventude (François Villon, Rimbaud, Büchner, Wedekind…), o funcionamento do capitalismo, o universo da prostituição, a luta pela sobrevivência do homem na cidade, os trabalhos já em curso de elaboração Baal e Tambores na noite. Chegou-se a um conjunto de dez poemas ou canções retiradas de peças. Cinquenta e tal anos depois, quando se tratou de montar o espectáculo, voltei a todo o material poético de Brecht desses anos a ver se algum poema se adequava melhor à fábula actualizada. Eram tão poucas as alternativas (uma) que entendi manter a selecção inicial do colectivo da Escola.

– É curioso como numa peça tão breve os grandes poderes vão desfilando no decorrer da acção: jornalismo, religião, poder político (na figura do fiscal camarário). E, de um modo ou de outro, todos esses poderes parecem corroborar a hipocrisia de Paduk. Estamos diante de uma sátira? Podemos falar numa tentativa de conciliar crítica social e política com divertimento?

É verdade que desfilam exemplares de todas essas expressões do poder, mais ou menos acentuados, que se constitui metaforicamente um fresco de alguns dos principais aparelhos ideológicos do Estado. E é verdade que alguns são zurzidos sem piedade, que toda a pequena peça está marcada por traços satíricos. O espectador riria a bandeiras despregadas se lhe propuséssemos apenas a pequena peça escrita em 1919 e sairia do teatro dizendo que se tinha divertido à grande. Com as “songs”, nós tentamos, sem vergonha, acrescentar espaço e tempo para o espectador pensar e criticar e não temos medo de afirmar que há, em certa medida, uma dimensão pedagógica neste espectáculo, em homenagem, de resto, aos princípios do teatro épico. Portanto, sim, tentativa de conciliar crítica social e política com divertimento. Em prejuízo de um sentido satírico mais elementar. Assim consigamos.

– Há uma inteligência no tipo de discurso da Madame Hogge, proprietária de um bordel, que se assemelha à retórica de sedução no mundo empresarial. Na tua leitura, faz sentido olhar para esta alcoviteira como uma espécie de metonímia do grande capital?

Faz todo o sentido, a meu ver, que a proprietária de um bordel, estabelecimento cujo funcionamento assenta na mais vil exploração da situação de necessidade duma mulher, seja como que a metonímia do grande capital, sim. E, sim, Madame Hogge dá uma bela lição sobre os princípios básicos do funcionamento do capitalismo, da procura do lucro, do salto qualitativo da concorrência entre empresas para a sua fusão em conglomerados dominantes… Aqui, sexo e dinheiro vão de mãos dadas e é difícil não pensar na trama de interesses, nos processos de chantagem que envolvem as grandes figuras do capital e da política actuais nas malhas dos chamados ficheiros Epstein.

– Curiosamente, na relação de Paduk com o assistente Lind também há uma espécie de proxenetismo. É como se entre Paduk e Madame Hogge as diferenças não fossem muitas. Concordas?

Posso dizer que nunca tinha pensado nisso nesses termos? Fico fascinado com a tua pergunta. De facto, ao reclamar do seu empregado as gorjetas honradamente ganhas por este, Paduk tem o comportamento típico do proxeneta: tu “trabalhas” e eu saco. Mas onde as diferenças não são nenhumas é, mais em geral e sem o chulo metido ao barulho, no modo de exploração do trabalho, do trabalhador.

– Uma última questão. Não é a primeira vez que encenas para o Teatro da Rainha. Já lá vão pelo menos uma mão cheia de espectáculos. O que tem este para nos oferecer de novo e diferente?

Aqui é que vou completar a resposta à tua primeira pergunta.
Sempre apreciei muito o espírito do espectáculo de Verão do Teatro da Rainha produzido com a Câmara Municipal das Caldas da Rainha. Feito de preferência num espaço de ar livre, com entrada gratuita, mais do que uma vez com a participação de pessoas da comunidade, mais do que uma vez com música ao vivo, de um modo geral num clima de festa teatral, com um repertório de qualidade, o espectáculo de Verão é o momento da temporada em que a companhia está mais próxima duma ideia de Teatro Popular que nos é muito cara a todos.
Aqui há uns anos, estive para montar uma peça de Marivaux, A Ilha dos escravos, no âmbito deste programa. Seria no Parque, e o lago com os seus barquinhos de recreio haviam de fazer parte. Ficou pelo caminho por causa do covid.
Este ano, e porque os “novos tempos sombrios” que aí estão não me estimulam para uma fantasia em volta da recorrente temática da relação amo/escravo na comédia clássica, quis fazer um espectáculo que, divertindo, permitisse interpelar o estado das coisas, no plano da política, dos grandes movimentos da sociedade, da violenta batalha ideológica em curso e das recentes alterações do capitalismo aceleradas pela hegemonia do novo pensamento neo-liberal, monetarista. Luz nas trevas, como o enceno, permite essa abordagem.
É para mim que este trabalho traz algo de novo e diferente: precisamente a possibilidade de formular estas questões com ligeireza no quadro desafiante do programa do espectáculo de Verão, para mais envolvendo, para além do elenco da companhia, um grupo entusiasta e dedicado de amadores seniores e de jovens estagiários da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha e da Escola Superior de Educação de Viseu.
Escrevia Brecht em A Compra do latão: «O mundo está fora dos eixos, e serão precisos movimentos violentos para que tudo volte ao sítio. Mas entre os instrumentos que servem para tal pode haver um [o teatro], pequeno e frágil, que tem de ser manipulado com ligeireza.» Escrevia também, na mesma obra: «Um teatro em que seja proibido rir é um teatro risível. As pessoas sem humor são ridículas».

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CELEBRAR A LIBERDADE

25 Abril, 2026

Hoje celebramos a liberdade, podermos pensar em voz alta, ouvir, debater, partilhar. Celebramos essa conquista maravilhosa que é a possibilidade de reflectir em conjunto. Entrámos no 25 de Abril de 2026 a fazer isso mesmo, num encontro que se prolongou por mais de duas horas com a participação do público em momentos de dúvida e de esclarecimento. Falou-se de democracia e de quem a ameaça, dos tentáculos dessa máquina divisionista que estão disseminados pelas mais diversas instituições da nossa vida colectiva, semeando ódio, preconceitos e estereótipos. Falou-se de verdade, da importância da verdade e do papel que o jornalismo desempenha ou deve desempenhar nesse domínio fundamental da nossa vida em sociedade. Falou-se, acima de tudo, da relevância da escuta activa, pois é escutando que se compreende. A cultura é parte integrante da pólis, assim a entendemos porque sempre assim foi, e a política está e deve estar na cultura enquanto garantia de uma sociedade civilizada contra a barbárie. Agradecemos aos convidados Joaquim Jorge Veiguinha, João Figueira e Miguel Carvalho, mas também a quem compareceu com vontade de escutar activamente.

Instantâneos fotográficos pelo público presente na sessão em torno do livro “Por dentro do Chega”, de Miguel Carvalho, ocorrido a 24 de Abril no Pequeno Auditório do CCC.

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APRESENTAÇÃO / DEBATE

20 Abril, 2026

Por Dentro do Chega
de Miguel Carvalho
Pequeno Auditório do CCC
24 de Abril
21h30

Desde a sua publicação em Setembro de 2025, Por Dentro do Chega tem gerado um aceso debate acerca do recrudescimento da extrema-direita em Portugal. Ao longo de cinco anos de investigação, o trabalho de Miguel Carvalho expôs um projecto político dominado por vendettas e minado por financiamentos obscuros, ligações internacionais e convivências internas com os saudosistas das ditaduras fascistas e nazis.

Dia 24 de Abril, tendo como ponto de partida a apresentação do livro Por Dentro do Chega, o Teatro da Rainha promoverá um debate em torno de temáticas associadas ao recrudescimento da extrema-direita e do populismo um pouco por todo o mundo. A sessão contará com as contribuições do jornalista Miguel Carvalho, de Joaquim Jorge Veiguinha, autor de As Raízes Ideológicas do Pensamento Político da Extrema-Direita (Edições 70, 2025), e de João Figueira, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra, onde foi, até Dezembro de 2022, director do Mestrado em Jornalismo e Comunicação.

Jornalista no Diário de Notícias (1989-1997), no semanário O Independente (1997-1999) e na revista VISÃO (1999-2023), Miguel Carvalho venceu o Prémio Orlando Gonçalves (Jornalismo) em 2008 e em 2020, o Grande Prémio Gazeta do Clube dos Jornalistas (2009), o Prémio Gazeta de Imprensa (2022) e a 3.ª edição do Prémio Jornalismo de Excelência Vicente Jorge Silva (2024). Publicou sete livros. Em Por Dentro do Chega, Miguel Carvalho insiste na cobertura e investigação do radicalismo de direita, após a publicação de Quando Portugal Ardeu (2017) e Amália – Ditadura e Revolução, a História Secreta (2020), livros com que foram objecto de sucessivas reedições.

Joaquim Jorge Veiguinha é doutorado em Ciência Política pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (2012). É coordenador da revista de reflexão e crítica Finisterra, fundada por Eduardo Lourenço. Em 2022 e 2023, publicou pelas Edições 70 a monumental História Crítica do Pensamento Político em dois volumes.

João Figueira é doutorado em Ciências da Comunicação e professor de jornalismo na Universidade de Coimbra. É autor de vasta bibliografia sobre jornalismo, editada em Portugal e no estrangeiro, e co-organizador da obra As fake news e a nova ordem (des)informativa na era da pós-verdade. As questões ligadas com a História do Jornalismo e dos media; com a desinformação/manipulação; e com as relações entre Jornalismo e Democracia, constituem as suas principais fontes de interesse académico. Como jornalista, recebeu vários prémios e distinções, de que destaca o Prémio de Reportagem/Jornalismo atribuído em 1999 pelo Clube Português de Imprensa.

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DIA MUNDIAL DO TEATRO

28 Março, 2026

Terminámos ontem as apresentações de “A Árvore que Sangra”, de Angus Cerini, no Pequeno Auditório do CCC. Assinalámos o Dia Mundial do Teatro com casa cheia e a presença de Sua Excelência o Presidente da República, António José Seguro, cuja nota no “site” da Presidência da República a seguir reproduzimos:

“O Presidente da República assinala hoje o Dia Mundial do Teatro, uma arte que transcende fronteiras, culturas e gerações. Poderoso veículo de expressão, liberdade e criatividade, convida à reflexão sobre o nosso papel coletivo e individual, bem como à união das pessoas em torno de histórias que nos tocam profundamente.

A multidisciplinariedade da arte cénica envolve artistas, encenadores cenografia, figurino, iluminação e sonoplastia que, com dedicação e paixão, fazem do teatro uma forma de arte essencial para a construção da sociedade, enriquecendo a nossa identidade democrática e contribuindo para a promoção do pensamento crítico e da empatia.

O Presidente da República assinala o Dia Mundial do Teatro marcando presença na apresentação da peça “A Árvore que Sangra”, da autoria de Angus Cerini, encenação de Fernando Mora Ramos e interpretação do Teatro da Rainha (Isabel Lopes, Mafalda Taveira e Marta Taveira), no Centro Cultural e de Congressos, nas Caldas da Rainha.”

Fonte.

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O TEATRO DA RAINHA FAZ 40 ANOS

26 Setembro, 2025

 O Teatro da Rainha faz 40 anos. E está a celebrá-los, isto é, a percorrer através de material fotográfico revelador o que realizou. Não é apenas um acto de memória, mas vivificar – o momento de olhar de quem especta – uma actualidade dos espectáculos, uma projecção destes num presente dos observadores que é, como sabemos, sempre a fugir – tudo é imediata memória. O tempo não pára mesmo que no teatro o paremos, não só nos “silêncios”, nas “pausas” e nas didascálias que dizem “um tempo”, mas porque suspendemos o fluxo na ampulheta da eternidade para evidenciar nos acontecimentos cénicos as suas interacções sociais e nelas o que sejam opressões escondidas e outras monstruosidades do humano mas, em contracorrente, realizando a festa com as armas do humor dos autores, dos actores e jogo dos seus corpos, da encenação: a festa do prazer estético, da beleza que existe também no que é feio, oculto e imperfeito – o tempo que vivemos é realmente tragicómico, a tragédia multiplica-se numa metástase contínua de violências sem limite e o entretenimento, dominante, adocica e mascara tudo de modo avassalador. Há sempre uma anedota a contar, uma pitada de óbvio a exaltar.

A impotência chama-se Ocidente.
No caso desta mostra fotográfica, aqui, na Casa Antero, pomos em dia o que fizemos no Beco do Forno, beco de muitas estradas polémicas. Esta Casa é um Centro Cultural, um espaço de convívio, de cumplicidades e por certo de crítica conspirativa, da arte de maldizer que redime as almas.  Convosco, nesta parede acolhedora, está Cervantes (o criador do Quixote), Molière (que diagnosticou a hipocrisia dos Tartufos desta vida e dos mentirosos em geral, Goldoni tem o seu Bugiardo), Karl Valentin (que inspirou com o seu cabaret blagueur o dramaturgo Bertolt Brecht) e o próprio Brecht que, através do seu alter-ego “Senhor Keuner”, introduziu nos espíritos (des)atentos dos seus leitores uma versão maliciosa e subtil da introspecção dialéctica, elevando a ingenuidade a método.
Em cena, nestas fotografias da Margarida Araújo – sempre presente -, a Isabel Lopes, o Victor Santos, o José Carlos Faria, o Carlos Borges, o Octávio Teixeira, o Miguel Brás, a Sofia Araújo e a Maria Peres.
E já agora, ao vivo e aqui anunciada, a apresentação a 26 e 27 deste Setembro, de Cenas de fim de boca: uma prova de vinhos cómica e ritualística, como é devido ao divino líquido, inscrita num acontecimento coproduzido com o Paulo do Antero, o Paulo Santos da Padaria Forno do Beco e o Júlio Baridó da Quitéria dos queijos, ali à Praça da Fruta.
Não vos falta nada, venha o riso das boas estrelas.

 

Fernando Mora Ramos

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Exercícios finais das Oficinas de Formação Artística e Teatral do Teatro da Rainha

29 Maio, 2025

Entre 30 de Maio e 1 de Junho iremos apresentar na Sala Estúdio do Teatro da Rainha os exercícios finais dos participantes nas Oficinas de Formação Artística e Teatral do Teatro da Rainha. 30 e 31 de Maio teremos o exercício final dos inscritos nas Turmas de Jovens II (14 aos 19 anos) e dia 1 de Junho o exercício das Turmas de Crianças e Jovens I (7 aos 13 anos).

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Na República da Felicidade | Três perguntas ao encenador Fernando Mora Ramos

7 Novembro, 2024

Comecemos pela estrutura: um tríptico, sendo que a parte do meio se subdivide em 5. É uma estrutura complexa porque as partes são muito diferentes entre si, na forma e no conteúdo. O que é que, para ti, torna esta peça num objecto uno? 

O que unifica de modo sempre descontinuo, creio, são dois elementos, a ideia de viagem em direcção à tal felicidade que é enunciada no título e na cena pelo tio Bob como o contrário daquela miséria em que a família se encontra naquele miserável natal, um algures longe da mediocridade, vago como nas utopias e luzindo ao longe.

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Apelido Patego | Fernando Mora Ramos

2 Julho, 2024

O riso é hoje negócio de “humor” — conformação de um tipo engrenado de piada aos desígnios de uma plateia cuja expectativa é rir quantidades garantidas por serão. Esse “humor” é mercado, vende-se na “graça” a metro e pesa-se à unidade, o “humorista” vive de um tipo de “transgressão” fruído por fãs — montado na hora, tem agenda: a política local, os casos celebrizados, os temas “fracturantes”. A sua estratégia é publicitária, o escândalo é a medida do sucesso.

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Desafortunadas Ilhas

23 Agosto, 2023

Condenados às hierarquias, arrumados em classes sociais, os homens estão todos sujeitos à morte, mas nem todos passam a vida nas mesmas condições.
Se o homem está sujeito a tamanhas provações depois de pecar, não será a vida o verdadeiro inferno? E não o será especialmente para os mais pobres e desgraçados?

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