
Hoje celebramos a liberdade, podermos pensar em voz alta, ouvir, debater, partilhar. Celebramos essa conquista maravilhosa que é a possibilidade de reflectir em conjunto. Entrámos no 25 de Abril de 2026 a fazer isso mesmo, num encontro que se prolongou por mais de duas horas com a participação do público em momentos de dúvida e de esclarecimento. Falou-se de democracia e de quem a ameaça, dos tentáculos dessa máquina divisionista que estão disseminados pelas mais diversas instituições da nossa vida colectiva, semeando ódio, preconceitos e estereótipos. Falou-se de verdade, da importância da verdade e do papel que o jornalismo desempenha ou deve desempenhar nesse domínio fundamental da nossa vida em sociedade. Falou-se, acima de tudo, da relevância da escuta activa, pois é escutando que se compreende. A cultura é parte integrante da pólis, assim a entendemos porque sempre assim foi, e a política está e deve estar na cultura enquanto garantia de uma sociedade civilizada contra a barbárie. Agradecemos aos convidados Joaquim Jorge Veiguinha, João Figueira e Miguel Carvalho, mas também a quem compareceu com vontade de escutar activamente.

Instantâneos fotográficos pelo público presente na sessão em torno do livro “Por dentro do Chega”, de Miguel Carvalho, ocorrido a 24 de Abril no Pequeno Auditório do CCC.

Desde a sua publicação em Setembro de 2025, Por Dentro do Chega tem gerado um aceso debate acerca do recrudescimento da extrema-direita em Portugal. Ao longo de cinco anos de investigação, o trabalho de Miguel Carvalho expôs um projecto político dominado por vendettas e minado por financiamentos obscuros, ligações internacionais e convivências internas com os saudosistas das ditaduras fascistas e nazis.



O Teatro da Rainha faz 40 anos. E está a celebrá-los, isto é, a percorrer através de material fotográfico revelador o que realizou. Não é apenas um acto de memória, mas vivificar – o momento de olhar de quem especta – uma actualidade dos espectáculos, uma projecção destes num presente dos observadores que é, como sabemos, sempre a fugir – tudo é imediata memória. O tempo não pára mesmo que no teatro o paremos, não só nos “silêncios”, nas “pausas” e nas didascálias que dizem “um tempo”, mas porque suspendemos o fluxo na ampulheta da eternidade para evidenciar nos acontecimentos cénicos as suas interacções sociais e nelas o que sejam opressões escondidas e outras monstruosidades do humano mas, em contracorrente, realizando a festa com as armas do humor dos autores, dos actores e jogo dos seus corpos, da encenação: a festa do prazer estético, da beleza que existe também no que é feio, oculto e imperfeito – o tempo que vivemos é realmente tragicómico, a tragédia multiplica-se numa metástase contínua de violências sem limite e o entretenimento, dominante, adocica e mascara tudo de modo avassalador. Há sempre uma anedota a contar, uma pitada de óbvio a exaltar.
